O que é “text-hip”? Na Coreia, ler virou moda — e a leitura entre adultos bateu o menor índice da história
Criador do mekuruPublicado em Cerca de 9 min de leitura
Uma publicação da editoria internacional da NHK me levou a seguir a pista do “text-hip” coreano. De um lado, um boom de leitura entre os jovens; do outro, um índice de leitura adulta no menor nível da história. Entre esses dois números contraditórios, encontrei algo que muitos leitores de hoje compartilham: a vontade de ler sozinho, com só um pouco da presença de alguém por perto.
Tudo começou com uma publicação da NHK
Hoje, rolando o X, uma publicação da editoria internacional da NHK (@nhk_kokusainews) chamou minha atenção.
Um boom de leitura se espalha entre os jovens da Coreia. Investigamos o que está por trás: pessoas compartilhando suas leituras nas redes sociais e clubes de leitura em que desconhecidos se reúnem para ler juntos.
A legenda na tela dizia: “text-hip: publicar nas redes os próprios livros e momentos de leitura”. Eu tinha ouvido que ler estava virando tendência na Coreia, mas sinceramente não sabia que o entusiasmo tinha durado tanto como cultura, muito depois da febre que veio com o Nobel.
Depois, nas respostas, alguém escreveu: “Fiquei chocado com o quanto o índice de leitura entre adultos é baixo”. Curioso, fui atrás das reportagens coreanas recentes e das estatísticas mais novas. O que encontrei não era a simples história bonita de “os jovens de repente começaram a ler”, e sim um retrato mais real, e mais urgente, de onde a cultura de leitura está agora.
O que significa “text-hip”
Dizem que a palavra nasceu nos fandoms de ídolos. Também chegou contexto de fora, como a frase da modelo americana Kaia Gerber no início de 2024: “reading is so sexy” (ler é muito sexy). Já existia um clima global — ler como algo inteligente, sexy, descolado — que serviu de terreno.
O ponto central é que o text-hip não abrange só ler, mas se mostrar lendo. O que virou cultura foi o comportamento em volta do livro, mais do que o livro em si. Essa distinção é a chave para entender o descompasso com as estatísticas de leitura que veremos abaixo.
Três faíscas que acenderam o boom
- Os ídolos do K-pop e seus “livros de aeroporto”Jang Wonyoung, do IVE, e Huh Yunjin, do LE SSERAFIM, entre outras, falaram abertamente do amor pelos livros e recomendaram títulos como “Peitos e Ovos”, de Mieko Kawakami, ou uma coletânea de palavras de Buda do monge japonês Ryunosuke Koike. Os livros que carregavam pelo aeroporto de Incheon viraram “livros de aeroporto”, e a mídia repercutiu. Fãs leem o que seus ídolos leem: o calor do fandom foi direto para as livrarias.
- O Nobel de Literatura de Han Kang (outubro de 2024)O momento decisivo foi o Prêmio Nobel de Han Kang. “A Vegetariana” e “Atos Humanos” passaram de um milhão de exemplares vendidos em seis dias após o anúncio. Em um mercado que publica mais de 60 mil títulos por ano, um livro de um milhão de cópias aparece talvez uma vez por ano. As vendas de livros impressos saltaram 80% em relação aos seis dias anteriores — uma explosão que o mundo editorial nunca tinha visto.
- As redes sociais como lugar para ser vistoE havia onde compartilhar tudo isso: as contas de leitura no Instagram e no Threads. Capas, marcadores, cadernos, estantes de livraria. Ler deixou de ser uma atividade que terminava em você e virou uma experiência que dá para publicar. A palavra text-hip pegou porque existia esse lugar para colocá-la.
A energia não ficou em um alvoroço passageiro. Ela se assentou em hábitos concretos entre os jovens.
Uma cultura de leitura que virou hábito
- Pilsa: copiar livros à mãoNas livrarias independentes de Seul, já é uma cena comum em noites de semana: jovens de vinte e poucos anos reunidos para passar uma hora copiando em silêncio, à mão, um trecho de romance no caderno. O pilsa nasceu como técnica de estudo para provas; virou uma cultura moderna de cadernos favoritos e canetas-tinteiro dispostos e fotografados para o Instagram. As vendas de livros de pilsa cresceram cerca de sete vezes em um ano (+692,8%).
- Book-hopping: roteiros de livrarias e bibliotecasAs viagens de leitura ficaram populares: percorrer as livrarias independentes de Gunsan ou visitar, em Jeonju, a biblioteca Yeonhwajeong e a biblioteca de poesia da floresta de Haksan. Viraram conteúdo promovido pela própria organização nacional de turismo.
- A explosão dos acessórios de leituraNo app de compras ZIGZAG, as buscas por capas de livro cresceram 28 vezes. A “personalização de leitura” — vestir um livro com pesos de papel, perfumes para livros e marcadores — se consolidou.
- Febre de eventosMais de 150 mil pessoas lotaram a Feira Internacional do Livro de Seul, 70% delas entre vinte e trinta e poucos anos. O “pão Minumsa”, colaboração entre a editora Minumsa e a rede de lojas GS25, vendeu 50 mil unidades em três dias, e um item de 3 mil wons foi revendido em apps de usados por 15 mil.
Visto assim, parece um boom de leitura notável e duradouro entre os jovens coreanos.
Enquanto isso, o índice de leitura adulta caiu ao mínimo histórico de 38,5%
Mas os números da Pesquisa Nacional de Leitura 2025, publicada em março de 2026 pelo Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia, mostram a realidade oposta.
- Índice geral de leitura adulta
- 38,5%
- O mais baixo desde o início da pesquisa, em 1994
- Livros lidos por adulto por ano
- 2,4 livros
- Só 18,2 minutos de leitura em um dia útil
- Adultos que não leram nenhum livro em um ano
- Mais de 60%
- O outro lado do índice: leitores e não leitores se afastam
Só o índice dos jovens de vinte e poucos anos subiu um pouco, para 75,3% (+0,8 ponto), mas já era de 74,5% em 2023. Ou seja, não é que os jovens que nunca liam tenham começado a ler todos de uma vez. O mais perto da verdade: quem já lia ficou visível, e fácil de consumir como cultura.
O que o boom moveu não foi o número de leitores, e sim o calor em volta dos livros. Essa leitura combina com as críticas dentro do país.
O olhar frio da imprensa coreana
A mídia coreana está longe de ser unânime no entusiasmo com o boom.
Não seria uma exibição de “isseobility” — o jeito de parecer ter bom gosto — para as redes sociais?
A feira do livro virou uma feira para comprar produtos de edição limitada, não livros.
Enquanto todos falam em boom, os fechamentos e suspensões de livrarias independentes já passam de 250 no total; a livraria de bairro continua desaparecendo.
As críticas são compreensíveis. É difícil negar que o que cresceu não foi o número de pessoas que leem livros, e sim o de pessoas que consomem em volta deles.
Por que, mesmo assim, não dá para chamar de vaidade
E, no entanto, reduzir tudo isso a vaidade ou a uma tendência de consumo também não me parece certo.
Pessoas esgotadas pelo estímulo do vídeo curto, sufocadas por um cotidiano que exige eficiência a cada passo, buscam o toque do papel e o silêncio, do mesmo jeito que buscam um disco de vinil ou uma câmera de filme. Esse instinto é honesto.
E não é uma história só da Coreia. No Japão, a pesquisa de 2023 sobre a língua nacional da Agência de Assuntos Culturais mostrou que 62,6% das pessoas não leem nenhum livro em um mês típico, contra 47,3% cinco anos antes. As escalas são diferentes, mas a paisagem é quase a mesma dos “mais de 60% não leem nada em um ano” da Coreia.
Olhando mais longe, existe o Silent Book Club, nascido em São Francisco em 2012, em que as pessoas se reúnem para ler em silêncio cada uma o seu livro; ele se espalhou por vários países, e no Japão também crescem aos poucos os clubes de leitura silenciosos, sem conversa. Menos gente lê e, mesmo assim, os lugares para ler em silêncio com outras pessoas se multiplicam. Essa contradição, acho, fica bem perto do coração do text-hip.
O tempo sozinho e a presença de alguém
No fim das contas, o tempo de leitura é profundamente pessoal. Ninguém pode entender uma linha por você; você segue as palavras na própria cabeça e deixa os pensamentos andarem no seu ritmo. É um ato solitário, muito íntimo.
Mas, sentado sozinho à mesa, a mão vai para o celular ou o barulho do dia leva a atenção embora. Mesmo com vontade de ler, manter o silêncio só na base da força de vontade é surpreendentemente difícil no mundo em que vivemos.
É aí que algo como o clube de leitura das imagens da NHK ajuda: a simples presença de desconhecidos virando páginas em silêncio no mesmo espaço, de algum jeito, traz você de volta à sua própria leitura. Sem conversa, sem nada imposto. O mero fato de alguém estar ali vira um apoio silencioso para o tempo que você queria dedicar a si mesmo.
Estou construindo um espaço de leitura com presença silenciosa
Adoro o tempo que passo lendo e queria um lugar onde essa presença silenciosa pudesse ser sentida — por isso estou construindo um pequeno serviço web chamado mekuru.
Não há socialização animada nem nada parecido com um feed: só avatares sentados na mesma sala com os livros abertos. Um espaço de leitura para livros de papel. Sem vídeo, sem microfone, sem chat. O que chega até você é o som ocasional de uma página virando e a sensação de que alguém está ali. O tempo que você passou com o seu livro fica registrado em silêncio.
O tempo com um livro pertence só a você. Ainda assim, de vez em quando, espero que mais de nós possamos pegar emprestado um pouco da presença de alguém virando páginas e aproveitar devagar o livro que temos nas mãos.
Perguntas frequentes
O que significa “text-hip”?
Text-hip é um neologismo coreano que junta “texto” e “hip”. Significa publicar nas redes seus livros e experiências de leitura, e a atitude de que ler é legal. Espalhou-se a partir de 2024, principalmente entre pessoas dos dez aos trinta e poucos anos, depois que ídolos do K-pop falaram de suas leituras e Han Kang ganhou o Nobel de Literatura.
Qual é o índice de leitura na Coreia?
Segundo a Pesquisa Nacional de Leitura 2025, publicada em março de 2026 pelo Ministério da Cultura, Esportes e Turismo, o índice geral de leitura adulta foi de 38,5%, o mais baixo desde o início da pesquisa em 1994. Os adultos leem 2,4 livros por ano e 18,2 minutos em um dia útil. Só os jovens de vinte e poucos anos tiveram um índice alto, de 75,3%, com alta de 0,8 ponto.
Por que ler virou tendência na Coreia?
Coincidiram os ídolos do K-pop falando abertamente de livros, o Nobel de Han Kang em outubro de 2024 e as redes sociais como lugar para compartilhar tudo isso. Por trás há uma geração jovem cansada do estímulo do vídeo curto, que busca o toque do papel e o silêncio.
Algo parecido acontece no Japão?
A Agência de Assuntos Culturais do Japão descobriu, na pesquisa de 2023, que 62,6% das pessoas não leem nenhum livro em um mês típico. Ao mesmo tempo, o Silent Book Club e os clubes de leitura sem conversa se espalham, então o desejo de um lugar para ler em silêncio com outras pessoas existe também no Japão.
Fontes e leituras
- NHK, noticiário internacional, no X (@nhk_kokusainews): o boom de leitura entre os jovens coreanos
- Ministério da Cultura, Esportes e Turismo (Coreia), Pesquisa Nacional de Leitura 2025 (publicada em março de 2026)
- Agência de Assuntos Culturais (Japão), pesquisa de 2023 sobre a língua nacional
- The Nobel Prize in Literature 2024 — Han Kang
- Silent Book Club
